domingo, 17 de outubro de 2010


I

Tudo muda

Quando você acha que sua vida está completa...







Você algum dia acordou e teve algum tipo de pressentimento, que aquele mundo que você vive não é mais o mesmo, que você não se encaixa em lugar nenhum e que precisa tomar alguma atitude pra não se perder de vez? Hoje acordei com essa sensação em minha garganta e que esta custando a passar. Não que essa seja a primeira vez que me ocorre esse sentimento, na verdade eu venho sentindo isso já algum tempo. Tudo começo quando completei meus dezessete anos, e eu disse a mim mesma que era apenas um começo de minha própria vida e o que queria dizer era algo simples e fácil de se entender. Eu estava crescendo. Apesar de tudo isso algo estranho aconteceu, eu não me acostumei. Todos os dias acordo, me levanto, tomo café da manhã ao lado de minha mãe e meu padrasto. Mamãe me obriga a levar lanche para escola e Eric me ajuda comendo o sanduíche ao me levar para aula. Eu estudo, tenho meus amigos e passo meu tempo ao lado da maioria deles. Nada diferente do comum. Nada mesmo, mas essa sensação nunca vai embora. A cada dia que se passa, mais certeza eu tenho que esse não é o meu lugar é, como se eu fosse um e.t só querendo voltar para casa. Um E.T que ainda não sabe o caminho.

Alguns dias atrás descobri o real motivo de meu estado de espírito. Eu tenho tudo o que eu preciso. Meus amigos, família e uma casa de frente ao mar, e se caso eu quiser apenas atravessar a rua. Não tenho do que reclamar, pedir ou justificar. Eu apenas preciso abrir um espaço para que outras coisas possam aparecer em minha vida e eu posso saber quem realmente eu sou. Sinto-me como qualquer outra adolescente. Uma pessoa estranha no meio da multidão só querendo achar um canto pra ser ela mesma. Por isso decide que daria isso a mim durante o verão todo e deixaria que mamãe e Eric tivessem sua pós lua-de-mel sozinhos. Mesmo depois de três anos casados.

Mamãe não aceitou de inicio minha ideia em querer passar o verão ao lado de meu pai em outra cidade que ele deveria estar passando alguns meses. Desde que meus pais se separaram, eu nunca passei um dia sem ter minha mãe ao meu lado e mesmo que eu fosse passar férias junto de meu pai, mamãe fazia questão de ir junto. Quando Eric surgiu em nossas vidas ou melhor na minha, mamãe se apaixonou perdidamente por ele e ele por ela e, desde então meu ex-professor de piano se tornou meu padrasto.
Nesse verão mamãe não vira comigo por causa do trabalho de Eric e por isso preferiu passar o tempo com seu marido do que comigo. Não que eu esteja chateada ou soltando fogos, mais ter mamãe em minha cola durante as férias não é bem meus planos para me descobrir.

E aqui estou. Esperando a chamada de voo para partir do Rio de Janeiro para Belo Horizonte a terra onde eu nasci e vivi até minha infância. Mamãe parece estar mais ansiosa e nervosa do que eu e papai. Nós chegamos aqui faz alguns minutos e se ela continuar desse jeito é capaz de que ela tenha um ataque do coração ou talvez até mesmo eu tenha.
Eric parece ser o único estar tranquilo com toda a situação, não esboçou nenhum tipo de sentimento, mais também não deixou momento algum em me ajudar a escolher o que eu realmente quero.

Foi até ele mesmo que me ajudou a convencer mamãe em me deixar a ir. Eu sou muito grata á tudo que Eric tem feito para minha mãe. Ele só não tem se tornado um ótimo marido como um ótimo pai de criação, ou como ele prefere ser chamado de marido, o que mamãe não gosta muito, porque seu apelido é filha. É uma brincadeira que nós ― Eric e eu ―, inventamos só para irritar mamãe o que com certeza fazia efeitos rapidinhos. A brincadeira era da seguinte forma, eu era a esposa, ele o marido e mamãe era a filha, por que ela mesma sabe que ainda tinha sua mentalidade de adolescente enquanto isso eu parecia uma adulta cheia de responsabilidades tentando criar ou pelo menos tentar uma "mãe-filha". O que Eric no inicio de seu namoro com minha mãe achava engraçado e preferiu nós apelidar dessa maneira.

― Querida, você tem certeza que quer me deixar? ― Encarei Eric que esboçava um sorriso divertido nos seus lábios, assim que nossos olhares se encontraram ele chacoalhou os ombros. Legal, belo pai que eu fui arrumar, cai fora e me deixa sozinha pra resolver o pepino.

Antes de me virar para respondê-la, dei de língua como uma criança para Eric, o que fez ele rir deixando pequenas rugas aparecerem no canto de seus olhos. Quando meus olhos finalmente foram de encontro com os de minha mãe, eu pude ver o quão arrasada ela estava. Era a primeira vez, primeiro verão, primeiro tudo depois do dia que nasci que eu passava algum tempo sem ela. Eu sabia exatamente qual era seu sentimento, mais por outro lado não via a hora de poder ter a sensação de subir em um avião sem mãe alguma para brigar comigo por causa da janela. Era somente eu e mais alguns estranhos por algumas horas dentro de um avião.

― Sim mãe. Será ótimo pra todo mundo, você vai ver! ― Olhei confiante para seus olhos amedrontados como se seu medo fosse igual de uma criança com medo de escuro.
― Você pode ficar, eu ligo para seu pai e ele vem passar o verão aqui.
― NÃO!

Ups me empolguei.

Mamãe me encarou espantada ao mesmo tempo que Eric pulava assustado de seu banco. Encolhi meu corpo me preparando para o que vinha a seguir.

― Você disse que não? Você não quer me ver ao seu lado, é isso? Se você não quer que eu fique me diga, sou forte e posso suportar isso, também se quiser nós mandaremos direto ao seu pai em uma nova escola, mas quero que saiba de uma coisa, quando seu pai não der o amor e carinho que eu te dou vai ser tarde demais, porque esse pobre e velho coração estará ferido demais.

Bufei me sentindo totalmente envergonhada, ainda mais com a plateia que se formava ao nosso pequeno reality show: "Mãe é trocada por sua filha ingrata". Aposto que audiência de hoje está bombando.
Encarei Eric que disfarçava o máximo possível, eu sabia que ele estava fingindo que não nós conhecia. Típico dele, humpf.
Mamãe continuo com seu falatório, e as pessoas continuaram paradas "nos" ouvindo, e eu já nem sabia mais do que o assunto se tratava. Enfiei os fones de ouvido de meu iPod disfarçadamente escondendo com meus cabelos, me dando impressão de que Eric conseguiu ver, mas apenas sorrio. Ele faria o mesmo se tivesse um.

Quinze minutos haviam passado, mamãe continuava a falar, eu podia ouvi-la ao fundo da música Feeling A Moment da banda Feeder. E eu sabia que não estava sentindo o momento, ainda mais quando se trata como o dia de hoje. Eu ainda estava perdida sobre o que estava fazendo.
Quando meu iPod parou apenas para trocar de música, pude ouvir o silêncio vindo da parte de minha mãe. Estranhei, o que raramente acontecia, ainda mais quando se tratava de mamãe.


Olhei me espantando ao vê-la imóvel com um olhar perdido em um ponto qualquer, cutuquei Eric que parecia distraído, pude sentir um movimento vindo de sua parte, mas eu podia imaginar que ele também estava surpreso. Retirei os fones aproximando uma das minhas mãos sobre seu braço, assim que toquei mamãe voltou seu olhar para o meu.

― Está tudo bem? ― Seus olhos feito crianças voltaram com uma única diferença, eles estavam lacrimejando.
― Querida, vai ficar tudo bem.
― Não, não vai. ― Olhei para Eric esperando alguma explicação, seus lábios se moveram sem som: "Chegou a hora de ir". Senti meu coração gelar só assim entendendo o motivo.
― Mãe eu tenho que ir. Eric ficara com você, eu volto logo, prometo. ― Aproximei meu rosto dando um beijo sobre a cabeça de mamãe e abraçando, que apenas passou seus braços sobre mim quase me esmagando.

Me senti aliviada quando Eric arrancou minha mãe de meus braços fazendo entender que eu estaria por perto, o que eu duvido muito que ela tenha entendido.
Uma energia positiva dominou meu corpo ao entrar no avião vendo todas aquelas pessoas estranhas me sentindo uma adulta, bom pelo menos por algumas horas.

xx

Dormir durante toda a viagem, apenas ficando acordada pela aeromoça perguntando se eu gostaria de peixe ou frango.
Respirei fundo ao ver toda aquele imensidão de pessoas me sentindo perdida e pela primeira vez querendo que minha mãe estivesse aqui para saber o que fazer.

Olhei ao meu redor, vi uma senhora que estava no mesmo avião durante a viagem comigo. Resolvi então segui-la e fazer tudo exatamente igual. A senhora começou a caminhar em direção ao bagageiro o que me fez lembrar que eu ainda não havia pego minhas malas. Parei ao seu lado recebendo um sorriso simpático da senhora, avistei uma das minhas malas, eu só não sabia o quão difícil seria para pega-la. Inclinei meu corpo fazendo o mesmo que a senhora havia feito, mas de alguma forma ela era melhor do que eu, minha mala passou tão rápido que eu apenas tive que observa-la a ir embora.

Sorri frustrada para senhora que já pegava a sua segunda mala enquanto eu via minha terceira mala seguir em frente. Porque diabos minha mãe tinha que me mandar pra cá com três malas grandes, sendo que só vou passar o verão?
Cruzei os braços já me sentindo irritada o suficiente por não conseguir pegar algumas malas enquanto uma senhora batia de dez á zero em mim.

― O truque é você ficar preparada assim que sua mala surgir. ― Olhei para senhora que ainda mantinha um sorriso em seu rosto, não pude deixar de sorrir.
― Obrigada, é a primeira vez que viajo sozinha. ― A senhora apenas sorrio já se preparando para ir, o que me fez entrar em pânico. O que eu ia fazer? Falar que queria que ela ficasse comigo porque aparentemente eu estava a seguindo?

Desesperada, inclinei meu corpo antes mesmo de ver minha mala, o que me fez perde o equilíbrio, fechei meus olhos já podendo sentir a dor que vinha a seguir e os olhares que receberia de todos. Ótimo! Mal cheguei na cidade já estou deixando minha marca registrada.

Me espantei ao sentir um vento passar sobre meu rosto, mas nada de sentir sobre o chão ou alguma mala. Abri meus olhos, vendo meu corpo completamente... normal (?) Só assim pude sentir uma mão sobre um dos meus braços. Uma mão grande, com dedos grandes, arregalei os olhos com medo do que eu veria a seguir ou melhor o dono dessa mão.
Levantei meu olhar hesitante, seguindo de suas mãos para seu braço incrivelmente bronzeado pelo sol. Engolindo em seco, meus olhos chegaram até do possível dono de mãos incríveis.

Já disse que amo mãos?

― Cuidado, você pode se machucar. ― Olhei para o garoto em minha frente, me segurei para não soltar um típico suspiro de garotinha apaixonada pelo garoto do colégio. ― Moça? ― Com a respiração presa, voltei meu olhar em direção a mão sobre meu braço e de meu braço para seu rosto, o que fez entender e me soltar. ― Desculpe, deixa que eu te ajudo com as malas.

― Não precisa, eu posso fazer isso sozinha. ― Me virei a procura de minha mala, o garoto atrás de mim riu, passando na minha frente e ao meu lado, pegando uma das minhas malas. Fiquei observando pegar todas as minhas malas, com toda facilidade, me fazendo parecer uma idiota.

― Prontinho. ― Revirei os olhos, ao ver seu sorriso aumentar. Cruzei meus braços pegando minhas malas, afastando meu corpo. Olhei para os lados a procura da senhora que antes eu podia ver, mas não a vi.

― Droga, viu o que você fez? Perdi a senhora que estava me ajudando. ― Bufei, ainda tentando acha-la e o garoto ao meu lado apenas suspirou.

― Acho que se ela estivesse ajudando não acha que estaria te esperando. Apesar de que suas tentativas de pegar as malas não foram das melhores considero que ninguém teria tanta paciência por esperar mesmo. Acho que sua única opção é aceitar minha ajuda

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